NOSSA QUE CHATO, VOCÊ PROBLEMATIZA TUDO!

Este texto é sobre o autor que o escreve, mas também pode ser sobre você que já chegou no ponto onde machismo, misoginia, racismo, homofobia, transfobia, gordofobia e os vários preconceitos remanescentes na nossa sociedade, não passam nem em piadas, tão menos em afirmações equivocadas. Logo, você é o chato que problematiza tudo, aquele que é considerado por não ter “senso” de humor, e curiosamente alguns te chamam até mesmo de extremista; se você se identifica com essas questões, este também é um texto sobre você!

É um texto que também tem uma carga pessoal muito grande, logo ele é um ponto de vista frente ao assunto. Aqui não é sobre certezas, ao contrário é a desconstrução da maioria das “certezas” existentes.

Solidão. Luta. Problemáticas.
Solidão. Luta. Problemáticas.

NOSSA QUE CHATO, VOCÊ PROBLEMATIZA TUDO!
NOSSA, NÃO PODE FALAR NADA, NEM FAZER UMA PIADA PRA VOCÊ!
NOSSA, COMO VOCÊ VIVE ASSIM?
NOSSA, QUE MUNDO CRUEL É ESSE QUE VOCÊ VIVE?

            Durante um bom tempo da minha vida, levei minhas vivências de forma aleatória, como se elas estivessem dentro de uma engrenagem maior que minha compreensão. Posso dizer que foram 23 anos acreditando no que foi me ensinando quando criança – e não digo sobre simplesmente deixar de ter alguns preconceitos – porque neste ponto a própria experiência acadêmica contribuiu, em desconstruir certos preconceitos básicos – o que pareceu revolucionário pra uma pessoa cheia de certezas e padronizações. Só que é um tanto cruel estar fora do que se considera como padrão, ou até mesmo de uma solidão que parece mais imposição que opção… Passei grande parte da minha vida, buscando estar atento ao que está na moda, sempre senti um descontentamento com meu corpo, com meu cabelo, enfim odiava o conjunto de quem eu era, porque ser quem eu era, significava não estar nos padrões.

                Mesmo dentro da Universidade, me aproximando de lutas como o feminismo, junto a própria experiência história, aprendi e desconstruí muita coisa; mesmo assim, olhando ao meu redor eu tinha a impressão que as mesmas padronizações que me afligiam na adolescência estavam presentes de forma sutil na fase adulta. Eu ainda queria ser belo o suficiente para ser notado, forte e sarado o suficiente para ser sexualizado, reproduzia na vida prática tudo aquilo que eu me opunha no discurso. Enfim, uma contradição de discursar igualdade, rompimento de padrões, discursar sobre olhar o próximo, e perceber que nenhum desses “excluídos” estiveram ao longo de toda minha vivência, aleatoriedade? É esta foi outra lição aprendida, não é aleatoriedade, não é sobre gosto pessoal, não é sobre foco, força e fé, é muito além disso, é começar a perceber que existem questões as quais sempre foram tão “naturais” que se tornaram normais, padrões que pareciam indispensáveis, porque minha desconstrução ocorria na medida que parecia conveniente – como ser descolado por estar na luta feminista – nem levando ao fato a questão básica do protagonismo.

Curiosamente foi preciso sair da Universidade, que foi muito mais uma ilha de Utopia, pra começar a perceber que não tem sentido algum proferir um discurso de problematização sendo que na prática da sua vivência, por convivência tudo continua o mesmo. As segregações, as padronizações, o discurso de beleza, de corpo, o discurso saudável que maquia a gordofobia, o desconhecimento da causa negra, trans, bi… Ou seja, todo esse processo é sobre perceber o quanto nos adequamos – mesmo que no discurso seja o contrário – ao status quo. Não rompemos os limites do corpo, censuramos o gordo, obeso; castramos aqueles que fogem da normativa da beleza, o “incomum” é dado como fetiche, sendo que deveria ser um preceito básico humano, perceber, contemplar o outro, sem julga-lo pela aparência. Parece natural essas escolhas, parece natural “não gostarmos” de nos relacionar com o gordo, o estranho, o “doido”; e mesmo depois de se auto proclamar uma pessoa ligada a humanidade, ainda continuamos com esses “gostos” lá no fundo, porque rompe-los significa ultrapassar a linha de distância entre o que você é no discurso para que isso seja uma realidade na prática; barreira essa – que nem a Universidade, nem as vivências dos que se dizem tão humanizados – consegue quebrar.

Problematizar e me tornar o chato do pedaço me fez perceber antes de tudo, o quanto ainda estamos cercados de hipocrisia e discursos de conveniência, onde a desconstrução só serve para análise daquilo que se distancia da “visão” do observador. Se emponderar é antes de tudo perceber que você foi vítima, durante toda uma vida, de padrões e determinações que pareciam tão concretas que foram verdades absolutas, ser belo, emagrecer, embranquecer, moda, estética… É perceber que a solidão que parecia ser uma punição por minha incapacidade de me adequar, é na verdade uma imposição de um sistema podre, que oprimi e inclusive mata.

Emponderar não é somente se amar, amar quem você é no conjunto, e sim sobre colocar em prática o que só fica no campo do discurso, é se tornar o chato da roda de amigos, dos encontros de família, porque é mais cômodo viver nas redomas onde tudo é lindo e podemos viver como no sonho prometido pelo capitalismo – sendo ele uma mentira; e sim, é sobre a crueldade da realidade ao mesmo tempo que você não é mais uma vítima, você se torna um agente solitário e absurdamente chato a maioria, por ser aquele que vai sim lembrar mesmo nos momentos de êxtase que existem pessoas sendo oprimidas por aquilo que você acredita ser inocente, existem pessoas que sofrem, sangram que não estão no nosso convívio e contribuímos de certa forma para a permanência desse sofrimento.

                 Oras, se você se declara feminista, lembre que não é sobre Clarice Falcão e Jout Jout, é sobre a mortalidade crescente de mulheres negras, se você se declara um ativista de qualquer movimento, perceba seus próprios atos, suas próprias questões de gosto… Antes de condenar beleza, ou estruturar padrões ao que se deve ou não vestir, problematize… Hoje posso dizer que tenho o passaporte para uma vida solitária e de ser sempre considerado chato, mas ao menos tenho a tranquilidade de estar tentando romper o poço de hipocrisia que me cercava, a ineficácia de proferir um discurso que nunca tinha vivido, a própria mesquinharia de condenar os que tem a coragem de problematizar como se tudo fosse mimimi, é perceber o quanto você foi condiciado a um comportamento de exclusão, de opressão e preconceito, e claro, perceber esse processo é uma opção; na sua frente sempre vai estar a possibilidade de se adequar, de estar nos padrões, de viver a vida como um conto de fadas, onde o sofrimento só é lembrado na hora de pegar a cartinha das crianças carentes no correio – dando a terrível sensação de que você fez sua parte. Não meu caro, viver e saber das problemáticas que nos cercam é fazer da sua vida um meio de resistência e oposição; emponderar-se não é moda, não é sobre estar feliz, é sobre se posicionar politicamente aquilo que sempre exerceu poder sobre você, o que o fez de vítima em uma estrutura que de tão bem moldada, que da a sensação – as vezes – de ser loucura se opor a ela.

Então sim, é sobre problematizar a música, o comercial, a novela, a festa, a roupa, o corpo, o discurso saudável, os gostos pessoais, é sobre problematizar a estrutura do sistema, é sobre problematizar e questionar o seu papel no mundo, de observador aquilo que te cerca – um observador que no fundo sabe de tudo isso mas prefere ignorar – ou se tornar um agente de oposição, de questionamento do status quo… Enfim, ao menos em todo esse processo, existe um certo sabor de liberdade e leveza, por aliviar a bagagem por não ter que carregar tanta hipocrisia nas costas.

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Sobre emponderamento e problematizações na era virtual, estamos sempre na luta manas, vocês não estão sozinhxs ❤

Encerro o texto com uma música/clipe que enquadra exatamente em todos os apontamentos levantados, será que nos perguntamos o sentido de nossas ações, afirmações e impressões? M.I.A propõe isso com magnificência nesse clipe, por isso deixo letra e música. Problematizar é sobre isso, é desconstruir verdades e heróis estabelecidos, é sobre resistir e lutar!

Assistam, ouçam, problematizem se emponderem!

“Liberdade, eu livre, minha liberdade
Onde está a liberdade para todos nós?
Esse mundo precisa de uma renovação
Liberdade para todos nós é a chave para a vida
Vamos ser isso
Se importar com smartphones? Não seja burro!

Fronteiras (Qual o objetivo disso?)
Políticos (Qual o objetivo disso?)
Policiais atirando (Qual o objetivo disso?)
Identidades (Qual o objetivo disso?)
Seu privilégio (Qual o objetivo disso?)
Gente pobre (Qual o objetivo disso?)
Gente nos barcos (Qual o objetivo disso?)
A realidade (Qual o objetivo disso?)
O novo mundo (Qual o objetivo disso?)

As armas arrombam a porta para o sistema [ser expulso]
Mandamos eles [o sistema] se foderem quando dizemos que não compactuamos com eles
Nós somos sólidos e não precisamos expulsa-los [o sistema]
Isso aqui é norte, sul, leste e oeste

Rainha (Qual o objetivo disso?)
Lacrou (Qual o objetivo disso?)
Sambou (Qual o objetivo disso?)
Kero (Qual o objetivo disso?)
Ser crush (Qual o objetivo disso?)
Ostentação (Qual o objetivo disso?)
Quebrar a internet (Qual o objetivo disso?)
#LoveWins (Qual o objetivo disso?)
Mandar o papo (Qual o objetivo disso?)
Estar aqui (Qual o objetivo disso?)

Nós representamos o povo, eles não tocam nossas músicas nas rádios
Nós falamos até enquanto dormimos, eles continuam ouvindo apenas o sistema
Estamos sentados numa varanda, onde nós conseguimos a nossa colher
É assim que a gente fica de boa, assim que a gente faz

Egos (Qual o objetivo disso?)
Seus valores (Qual o objetivo disso?)
Suas crenças (Qual o objetivo disso?)
Suas famílias (Qual o objetivo disso?)
Histórias (Qual o objetivo disso?)
Seu futuro (Qual o objetivo disso?)
Meus garotos (Qual o objetivo disso?)
Minhas garotas (Qual o objetivo disso?)
Liberdade (Qual o objetivo disso?)
Seu poder (Qual o objetivo disso?)”

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