MODA – O que ela pode revelar sobre a morte, vida, belo e grotesco?

Esse é um texto que permaneceu guardado, e agora foi instigado por outra mente selvagem, tão brilhante como a de McQueen, a mesma que mantém viva a memória de sua obra. McQueen sempre foi o regente da guarda de Lady Gaga. É incrível perceber o processo do tempo, pensar sobre o mundo da Moda sempre foi para mim um desafio imenso. Porque o universo da moda, mantém todos os padrões que oprimem, ditam e silenciam corpos por aí; ainda assim, creio que sobre em mim uma parte otimista que consiga ver algumas menções e alterações desse universo e três pessoas me fazem acreditar que esse mundo pode ser completamente sobre arte e não sobre o que você veste ou não, moda é extensão da performance é o adorno do corpo, mesmo quando nu, a moda pode revelar, amores, dores, melancolia, morte e vida. Gaga me instigou a recuperar esse texto com sua guarda da moda, eu a reverencio por ela me lembrar as 3 figuras – como uma trindade – que elevaram o ato de vestir a transcendência. Estas figuras são Alexander McQueen, Björk e Lady Gaga.

A maldita trindade
 A maldita trindade

O TEXTO FOI ESCRITO SOBRE ALEXANDER MCQUEEN, mas poderia ser sobre Gaga ou Björk, porque não é um texto no sentido técnico da Moda, mas um texto no sentido da transcendência, revelada por essas três figuras…

Perto de completar 6 anos da morte deste homem, que é regido pelo signo de peixes; este sujeito tinha um olhar que transcendia convenções e instituições; capaz de visualizar o que estava além do status quo de seu mundo. Divido entre real e irreal, entre tristeza e alegria, afirmava que é possível encontrar beleza no “grotesco”. Sua afirmativa se bem contextualizada é no mínimo interpretativa, o termo grotesco é antes de mais nada um campo aberto a milhares de possibilidades, neste caso em específico creio que grotesco é aquilo que “[…]pelo ridículo ou pela estranheza, pode fazer descer ao chão tudo aquilo que a ideia/cultura eleva alto demais. ” Todas as convenções eram altas demais a mente imaginativa de um pisciano que convivia com vários demônios…. Aos poucos foi trilhando seu caminho para autonomia artística, até que por sua originalidade e sensibilidade ele a tenha alcançado. Uma mente cativa de suas próprias criações, este homem viveu o máximo que lhe foi permitido, até que no dia 11/02/2010 se rendeu a luta diária entre real e sonho, alegria e tristeza, dando fim a sua própria vida.

O suicídio é uma sina que cerca aqueles que são regidos por peixes, as vezes como ideia, outras vezes como atitude concreta. Na dualidade entre vida e morte, este sujeito optou pela morte. Entre os vários mundos que poderiam ser conquistados, ele conquistou apenas um – que é o mundo da moda. Sua conquista sobre esse mundo se deu pela alquimia de unificar concretude e surrealismo na costura de sentimentos, o que para ele foi o mesmo que criar “ouro”.

Seu nome ainda não precisa ser mencionado, porque ele é só um acessório no conjunto de sua obra. Para conhece-lo é preciso adentrar num universo disforme, muitas vezes grotesco, onde os sentimentos abstratos de uma mente cheia de lembranças ganham forma, cor e costura. Biografias perdem o sentido no mundo das palavras quando se visualiza a complexidade de suas construções. Sua vida era transposta para as passarelas, suas criações eram uma junção entre roupa + performance. Seu mundo surrealista de pisciano tinha concretude naquilo que era evidenciado em cada coleção; um pintor surrealista com nuances de niilismo pós-moderno, com algumas pitadas de melancolia – e voilá aqui está uma parte da imperfeita simetria de um pisciano. Pontos que se isolam no mundo real, mas que coexistem no universo dos piscianos… Dualidades abstratas que ganharam vida nas passarelas, como por exemplo na sua coleção de primavera/verão 2001, onde os mais altos valores da moda veneravam e reverenciavam uma mulher obesa representando uma deusa mesopotâmica. O que significa essa dualidade? Costurando sentimentos. Este é o significado dessa dualidade!

Lady Gaga veste Alexander McQueen
Lady Gaga veste Alexander McQueen

Padrão, tradição, subversão…. Sua subversão não é somente estética. Antes de tudo uma roupa carrega junto de sua construção um processo que é também ideológico, e este é o ponto de transcendência deste sujeito; perto dos 6 anos de sua morte não lamento sua morte física, mas a magnitude de sua memória. Um estilista que encrustou seus valores disformes e lúgubres no DNA da cultura pop, muito do que é “sombrio” e conceitual hoje, ganhou forças com ele, e antes de ser apenas alta costura, sua mente selvagem não está restrita as roupas que desenhou, mas na permanência que a arte possibilita com aqueles que são merecedores.

Nesse ponto meu lado sonhador aflora, a arte toma uma “aura” de instância divina por possibilitar a transcendência de uma mente selvagem. Dos mundos que poderia dominar, ele dominou um na coexistência de dois. O mundo dos sonhos construído por todos piscianos é na verdade uma forma de contenção aos vários demônios que nos acompanham – neste momento meu estado de observador se dilui na memória de sua morte – ter esse “mundo” alternativo em mente ao mesmo tempo que se vive a concretude do mundo real é um desafio para poucos, que no caso dele foi cumprido com pleno sucesso! 

Seu nome? Alexander McQueen. Marca mundialmente conhecida e conceituada. Mas sempre me pergunto, a ostentação do mundo da moda e suas bases mercadológicas são capazes de “sufocar” todos os ideais? McQueen é a prova viva – memória – que não. O mercado foi atendido com suas criações, mas em momento algum ele se rendeu a ele, ao contrário, subverteu a sua lógica, tornou “vendável” o que antes nem era cogitado, e para além do financeiro subverteu valores morais dos altares da alta costura, blasfemou a beleza da moda… Enfim um homem que transcende o seu nome, matou seu físico e encrustou na cultura uma pitada de grotsco; sua memória mesmo que pequena será sempre lembrada, afinal basta olhar um dos modelitos icônicos de Lady Gaga em Bad Romance ou contemplar a perfeição que é a capa do álbum Homogenic da Björk, ali ele estará vivo e latente exorcizando seus sentimentos, ou seriam nossos? 

Björk/Homogenic por Alexander McQueen
Björk/Homogenic por Alexander McQueen

McQueen se perpetua por ser um dos únicos que fez coexistir um mundo “mental” na concretude do real, talvez essa dualidade o tenha levado à exaustão, os demônios exorcizados em cada coleção podem ter ficado mais fortes, ganhado novas formas, talvez seu suicídio seja a prova concreta da imperfeição simétrica da mente pisciana, que por acreditar em suas ilusões acabou por se entregar a sua maior utopia – seu mundo mental, mesmo que isso signifique fechar a cortinas do mundo real.

Este é Alexander McQueen, estilista britânico, nascido na regência de Peixes em 17/03/1969, morto na influência de aquário no dia 11/02/2010. Sujeito histórico de uma cultura nos auspícios da pós-modernidade. Artista perfeito na representação de niilismo, McQueen foi e é o que lhe permitiram ser, na medida do possível existiu e fez coexistir mundos que se repeliam…

“O domingo é obscuro, e as horas nunca passam. As mais queridas sombras com as quais vivo são inúmeras. Pequenas flores brancas nunca irão te acordar, pelo menos não aonde a negra carruagem da dor te levou; Os anjos nunca pensarão em te devolver à vida…. Será que eles ficariam bravos se eu pensasse em me juntar a você?”Björk, sua melhor amiga.

Alexander McQueen - Capa selecionada por Lady Gaga. Janeiro/2016
Alexander McQueen – Capa selecionada por Lady Gaga. Janeiro/2016

Que se mantenha viva a memória de uma mente selvagem.

 

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