A superficialidade em neon – uma experiência visual.

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O Demônio Neon – 2016

Falar sobre O Demônio Neon é antes de tudo falar sobre seu idealizador – Nicolas Winding Refn. Diretor e roteirista dinamarquês que chamou a atenção do mundo com seu filme Drive (2011) – um filme que tecnicamente pode ser entendido como um drama/ação ao tempo que é na verdade uma metáfora sobre a própria questão do significado de ser homem. Refn tem uma característica própria, em todos os seus filmes a uma celebração do campo visual, são filmes que se constroem a partir da visualidade, tornando assim o roteiro como um mero adicional a história que visualmente já tem vida própria.

Se analisarmos Drive temos aqui um cuidado do diretor em ainda relacionar a imagem com o roteiro, proporcionando assim uma experiência cinematográfica incrível. Drive evoca todas as sensações em cenas de ação ao mesmo tempo que evoca toda subjetividade humana no próprio sentido da existência; já Only God Forgives é – ao meu ver – o ultimato do diretor ao império do visual em seus filmes. No roteiro o filme peca em vários momentos, enquanto que visualmente constrói uma bela experiência. Refn em sua filmografia como um todo já evidencia os experimentalismos, todo esse experimentalismo culmina no visceral The Neon Demon (2016), que pode ser visto com um terror pós-moderno que impera sua história através de um visual que beira a superficialidade – por ter em seu esteio central a indústria da moda. O termo pós-moderno aqui se faz elementar na compreensão da película pelo fato da mesma ser uma metáfora a empreitada humana na contemporaneidade pois –

“Emoção, razão, tecnologia, tradição, individualismo, corporativismo, cultura erudita, cultura popular, inclusão, hedonismo, globalização, recuperação das diversidades regionais, academicismos, modernismos, busca de espiritualidade, culto à materialidade, mito, ciência, eficácia, inteligência emocional, busca do sublime, busca da produtividade, relatividade, extremismo, proliferação de seitas. Tudo isso? Algo disso? Quais são os móbiles da nossa pós-modernidade?” (MAGALHÃES, 1998, p.43)

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Nicolas Winding Refn – Diretor

 

Quais são os móbiles do humano pós-moderno? Tudo ao mesmo tempo que nada. Tudo por ser uma busca incessante numa verdade inexistente, nada por não ter nenhuma estrutura de sustentação; fragmentado esse humanóide do século XXI caminha entre hibridez cultural; do erudito ao superficial, do micro ao macro, das certezas ao ceticismo… Esse esquizóide é o humano objeto de Refn, que na projeção de The Neon Demon ganha vida na contraposição de conceitos e ideias que constituem nossas sociedades contemporâneas.

Neon – um elemento químico que em contato com a luz produz cores mais vívidas. No título do filme Refn já esclarece seu objetivo, a história a ser contada é uma história onde a visualidade impera, ela em si constitui a potência que da matéria e forma ao filme. Em linhas gerais o filme acompanha a história de Jesse uma jovem de 16 anos que acaba de mudar para Los Angeles. Possuidora de uma beleza natural, Jesse busca a carreira de modelo profissional, onde encontra certa notoriedade e acaba por entrar no mundo da moda, em toda sua superficialidade e competitividade. Temos aqui um filme que toma rumos improváveis, de uma história que relata a ascensão de uma jovem a um conto de terror – onde bruxas, canibalismo, rituais – se fazem presente.

Temos aqui um filme que visualmente é impecável, o cuidado do diretor em construir ambientes absurdamente coesos em relação ao mundo da moda. As tomadas são, muitas vezes as mesmas que podem ser vistas na maioria das campanhas publicitárias de moda.

Em Cannes, The Neon Demon foi vaiado, entre gregos e troianos foi acusado de exagero, amoralidade, bizarrices desconexas e de ser em essência superficial. Todas as críticas negativas direcionadas ao filme são os próprios elementos que o constitui. Interpretar a película como “superficial, amoral e bizarra” é exatamente a proposta do diretor; afinal o que a de tão profundo para ser visto no mundo da moda? Se não uma estrutura de opressão que é absurdamente misógino, elitista e machista. Refn não tem receio em escancarar essa superficialidade, assim como não tem pudores em elevar essa superficialidade a níveis antropofágicos.

Jesse encarna no em sua personagem as dualidades da mente do diretor, ao mesmo tempo que ela é representada de forma angelical em outros momentos ela é o oposto da “inocência” de sua beleza. Jesse é absurdamente narcisista, ela é o que deseja. Aqui é possível perceber que a noção de moral de Refn é absurdamente “fora” do convencional, ou melhor talvez nem seja uma questão de moralidade e sim imoralidade. Existe na película muito do que Nietzsche propõe na sua transvaloração dos valores, inclusive partindo da filosofia nietzschiana vamos ao encontro da própria inveja como o motivador das vontades e das potências. Nós somos o resultado do que almejamos, alguns com a coragem de bancar outras que pela escravidão da moral instituída preferem negar seus “instintos” – que aqui no filme significa necrofilia ou canibalismo, por exemplo.

The Neon Demon não é um drama narrativo, ele é em essência um filme que retrata sobre a superficialidade do mundo da moda, ou seja, ele existe no plano do visível, as imagens são colocadas na medida em que uma trilha sonora sintetizada, que vai surgindo como complementos as camadas do visual. Não se busca aqui uma profundidade que é inexistente ao filme, talvez a própria superficialidade nele proposta seja seu ponto de maior profundidade. Afinal, em relação a moral, beleza e opressões o mundo da moda não é um mero reflexo da sociedade que a consome? Jesse não é a encarnação da busca pelo ideal propagado por uma sociedade que impera em superfícies? Todas são questões que podem ser evocadas ao ter contato com o filme, mas nenhuma deve ser feita na estrutura do próprio filme. O Demônio Neon nada mais é que uma campanha editorial, estendida com roupagem de thriller de terror, e por esse fato ele é ruim? Pelo contrário, é nessa visível superficialidade que o filme ganha destaque, pois é desta superficialidade que ele escancara sua animalidade, pois qual melhor forma para o retratar se não pela sua característica básica?

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Poster Italiano

Refn é espetacular exatamente por isso, não é buscando uma roupagem e uma profundidade inexistente que o filme vai inebriar o espectador. O filme é mais uma etapa do processo de renúncia da linguagem do diretor, essa renúncia é sutil em alguns casos em outros mais evidente, aqui a história é conduzida pela imagem e dela emana toda superficialidade e imoralidade proposta pelo diretor…. Pensar em imoralidade em tempos absurdamente morais é sempre pertinente, por isso talvez as vaias sejam um triunfo a The Neon Demon, e a aversão causada pelo filme aos espectadores, seu coroamento. O cinema nunca foi sobre agradar ou sistematizar uma visão, e nesse aspecto os dinamarqueses – viva Lars Von Trier – conseguem com maestria “subverter” nossa moral para nos entregar obras primas cinematográficas.

Uma busca superficial das cores neon

As cores são parte elementar no protagonismo da imagem durante o filme, as luzes neons não são colocadas no aleatório, são conduzidas na medida em que a direção vai evidenciando as camadas imagéticas e múltiplas de cada tomada. Em um determinado momento Jesse vai para seu momento áureo, encerrar um desfile de alta costura. Esse encerramento é absurdamente simbólico, ele é na verdade um desfile rumo a paixão do próprio reflexo, um desfile rumo ao encontro de Narciso.

É evidente um nível de insegurança por parte de Jesse – até o momento dela colocar o vestido que ornaria seu desfile. O vestido para Jesse é como a armadura que lhe era necessária, e assim ela surge triangularmente iluminada pela luz neon azul, ali ela inicia uma caminhada que nada se aproxima de um desfile, e sim uma caminhada rumo a celebração máxima da indústria da moda, o culto a imagem, ao ego, a celebração de Narciso.

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O caminho a Narciso

Jess durante todo esse momento emana uma luz azul evocando o que Kandinsky vai dizer do “despertar um profundo desejo de pureza e do contato divino”. Em todas as representações em azul temos a superficialidade angelical da beleza de Jesse, em superfície ela é o que de puro e divino podemos imaginar; no fim de sua caminhada encontra-se então Narciso, seu próprio reflexo que agora renúncia a pureza do azul para exorcizar seus demônios na luz neon vermelha. E nessa cena temos uma apoteose ao imagético, a explosão da potência, a renúncia da moralidade, a liberdade do imoral, a inescrupulosa ode a beleza…

Pela luz neon vermelha temos a vontade de potência elevada ao máximo, não só nas cenas de Jesse. A perseguição que culmina no ritual de sua morte é um misto e uma briga do azul/vermelho. Uma briga entre serenidade/violência, entre pureza/crueldade, dicotomias que constituem nossos dilemas morais que aqui são renunciados. O objeto do desejo é o jovem, o belo, o sexo, o corpo, canibalizar esse corpo significa possuir sua dualidade, suas nuances de vermelho e azul, sua juventude angelical com o ego de narciso.

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O Narciso se estabelece

Alimentar-se de um corpo angelical com essência de Narciso é contemplar o máximo do desejo humano, é alimentar a dualidade que fomenta nosso embate moral; as cores aqui são apenas um guia ao resultado interno dessas atitudes que mesmo quando internalizadas evidenciam o superficial. O sangue aqui é metáfora, é purificação, é fonte de desejo alcançado, da inveja alimentada e consumada; ao mesmo tempo que as tonalidades neons do azul inocente só servem como falseamento para o vazio que sem cores e imagens nada mais é que o reflexo da sociedade pós-moderna.

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Aqui nós temos a apoteose da tonalidade angelical do azul no ambiente, enquanto o vermelho emana a ápice do desejo através do sangue.

O Demônio Neon é tudo o que propõe a ser, não é um filme de drama narrativo, estamos lidando com um filme que deve ser visto como uma experiência estética, e enquanto tal evoca todas as nossas sensações, inclusive aquelas tão massacradas pela moralidade cristã da nossa sociedade; que sejam libertos os demônios, que eles reinem em toda as tonalidades, frias, quentes ou neons.

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O império do visual
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